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terça-feira, 24 de abril de 2012

Enquanto isso no imaginário colateral de um autor






Dois personagens fictícios se encontram e duelam desabafos:


(1) -- Cara, nosso autor não anda nada bem... uma nota de rodapé tagarelou que ele está com o "mal do século". 
(2) -- Ela insinuou alguma ideia do motivo da depressão?
(1) -- Não, você sabe como são essas notas de rodapé ... sempre querendo ser referência e sugando sua estima! Eu mesmo não quis perguntar, fiquei com receio que ela me achasse um daqueles sanguessugas de opinião.
(2) -- Essa sua insegurança crônica diante das possíveis interpretações alheias é típica de personagem coadjuvante... 
(1) -- Já conversamos sobre isso! Meus problemas interpessoais abrandarão somente no final da história, não enxerga?! Um coadjuvante problemático e insolentemente despretensioso é o lubrificante da trama e engrandece as qualidades eminentes do personagem principal. Não enxerga ainda!?
(2) -- É verdade. Até que você comporta uma certa intelectualidade. Mas todo este discurso não serve para seu personagem. Esqueceu quem é uma reles árvore falante com crise de identidade por não conseguir dar frutos?


(1) -- HaHa! Não falarei absolutamente nada, pois não vou ser escravo da resposta. O silêncio tolerante é minha arma contra a sua ignorância ! Mas devo-lhe advertir que sou uma árvore essencial no enredo, ouviu bem?!
(2) --  ... Desculpe-me pela minha insalubridade compreensiva intencional, foi uma brincadeira.
(1) --  Desculpado. Mas não precisa ser sempre tão culto e meticuloso, o autor lhe fez tão chato assim? Aqui o seu nível cultural não lhe determina.
(2) --  Por falar no nosso autor, devo desabafar que tenho dó dele nesse mundo desgastante e emocionalmente disléxico no qual ele vive.
(1) -- Eu soube que lá não conversam com as árvores e nem com eles próprios. Um conhecido do capítulo sete me informou que no outro mundo tudo precisa ser burocrático o suficiente para só e somente poucos deles poderem interpretar, moldar as interpretações e conter os interpretadores que não estão de acordo com os intérpretes do comando. Não entendi muito, mas dá pra perceber que soa sombrio e escravista.
(2) -- É tão estranho pensar que somos frutos de uma realidade tão podre.
(1) -- É verdade! É tão desalmante me imaginar no mundo deles ...

...


segunda-feira, 23 de abril de 2012

Dos enjaulados-por-si-próprios.


O tripulado tripulante.


Pensei: sou tão novo!
Devo-me a espera,
ou escolto-me ao centro do furacão?
Talvez haja o dia que perceberei:
a tempestade ousa sempre cair.
E vira questão de escolha e sobriedade
enrugar-se com as consequências ou não.

Enquanto entorpeço-me de conforto e calmante,
na aurora dos meus próprios sonhos,
sinto-me um mero tripulante.





Os meus valores, alguns desvalorizaram-se como os réis e o tostão.
"Alguns" que não são meus,
são apenas conivências medrosas de uma crucificada geração.
O que me sobra se não moldar meu próprio espelho?
Reflexo meu que já existia antes de me tornar luz.

O futuro é tão traçado e o presente é um covarde inibido.
E eu um fruto saudoso de enjaulados-por-si-próprios,
Sentindo o cheiro enferrujado da verdade inalando dentro de nós.



domingo, 22 de abril de 2012

O "judicioso" progresso com base na desigualdade


Um documentário primoroso chamado "Da Servidão Moderna". É esse o motivo do post. A poesia, como toda arte, tem o valor de exprimir. Numa sociedade subserviente do consumismo e das moralidades obscuras e disléxicas , a arte exprimirá o massacre dessa crônica submissão.

Aconselho assistir:

Da Servidão Moderna.


Sinopse: “A servidão moderna é uma escravidão voluntária, consentida pela multidão de escravos que se arrastam pela face da terra. Eles mesmos compram as mercadorias que os escravizam cada vez mais. Eles mesmos procuram um trabalho cada vez mais alienante que lhes é dado, se demonstram estar suficientemente domados. Eles mesmos escolhem os mestres a quem deverão servir. Para que esta tragédia absurda possa ter lugar, foi necessário tirar desta classe a consciência de sua exploração e de sua alienação. Aí está a estranha modernidade da nossa época. Contrariamente aos escravos da antiguidade, aos servos da Idade média e aos operários das primeiras revoluções industriais, estamos hoje em dia frente a uma classe totalmente escravizada, só que não sabe, ou melhor, não quer saber. Eles ignoram o que deveria ser a única e legítima reação dos explorados. Aceitam sem discutir a vida lamentável que se planejou para eles. A renúncia e a resignação são a fonte de sua desgraça”.







Inocência doce de um amor de recreio


CAFÉ DA MANHÃ



De manha ao se sentar,
ela se lembra do amor e de passar o leite em pó.
A amargura do café há de equilibrá-la,
ela já é doce de mais.
O misto esfria, o suco azeda, o pão endurece,
e ela ainda a flutuar..no beijo roubado do dia anterior.
Sonhando um dia combinar tão bem com algo,
como queijo e presunto, como a faca e o garfo. 
E de poesia e romances à beira da mesa
o cuscuz já chupou o leite, omelete perdeu a graça,
e a fruta já deixou de ser fresca

E Ela vai sonhando ao pé da mesa..
E Ela vai sonhando ao pé da mesa...

Como se paixonite fosse complexo vitamínico ou alguma proteína.
Já vi paixão encher o peito,
mas nunca vi encher barriga.

"Coma, minha filha!",
dizia a mãe afadigada pelo amor alheio.
Tem coisa mais chata que amor de recreio?
Ela tem 12 anos e já se alimenta dessa fé,
chamam de amor, de passatempo, de coisa qualquer.
E de amores e passatempos, 
ela vai descobrindo o sabor do recheio que a completa.
Mas de uma coisa eu sei que ela saberá:

Não tem amor que não estrague uma dieta.

La droga de la internet

Os sintomas:

O usuário de internet se sente mais confiante, sociável, falante e leva sua mente a uma disposição antes desconhecida, deixando-o acordado durante a noite inteira (Efeitos da cocaína). Geralmente faz seu cérebro liberar as substâncias do bem estar, dopamina e serotonina. Na internet, "net" para os usuários, "viajam" sem sair do lugar, e facilmente enxergam imagens em movimento. Por até 4 horas você pode se sentir relaxado, cheio de energia e menos preso. Nos dias seguintes, sem o efeito da internet, muitas pessoas se sentem deprimidas ou irritadas (Efeitos do ecstasy).Os consumidores assíduos da droga "internet" talvez sintam que ela os proporciona novas idéias sobre a vida e ajuda-os a perceber toques, sons (por exemplo música) e cores diferentemente. Ela pode te deixar se sentindo abobado, confusão mental, senso de espaço e tempo distorcido, dificuldade de coordenação e reflexos mais lentos. Doses mais altas podem fazer você se sentir ansioso, paranóico, em pânico e, possivelmente, a alucinar (Efeitos da maconha).


A internet, um livro, a televisão, usadas como fontes de prazer, são materiais possivelmente "psicoativos" que podem direcionar, abalizar, reformular ou estender suas conjecturas cotidianas. Isso dependerá da intenção e do nível de discernimento do usuário. Eu fico sempre com a frase:

"A diferença entre o veneno e o remédio é apenas a dose".

sábado, 21 de abril de 2012

Enferrujado


"... E eu me equilibrava na linha tênue entre o ódio e a loucura. Como uma fuga recreativa de quem culpa o mundo pela própria ignorância. Ah! também guardei meu angulário e minha tolerância nos fundos de meu hospício particular (dentro de mim). Mania clichê de quem a solidão encheu-lhe o peito de nada.Descobri como o rancor é corrosivo. E até hoje ainda sou meio enferrujado..."


" Talvez nunca tenha desejado alguém ideal. Acho que acostumei com o gosto endeusado de reclamar de tudo, onde todos são imperfeitos e desnecessários. Num requinte de quem se apurou a sempre se defender e nunca sentir a euforia de marcar um gol. Tapava o sol cheio de vida, verdades e dor.. Tentando fazer sombra pra o meu orgulho.

Não percebia que meu ego é um molde da minha consciência ..."

(2010, Sem freios nem contrapesos - Felipe de Vas)